segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Clarice clandestina.


Quando Clarice morreu, eu ainda não havia nascido. Nem ao menos sonhada.
No dia 9 de dezembro de 1977 aquela força da natureza literária e humana havia partido. Seu corpo havia se entregue profundamente à cama de hospital que a segurava havia dias. Sua alma partiu ao desconhecido que tanto a intrigava, àquela coisa que sempre despertava suas dúvidas. Seu deus tão confuso e esquisito estendeu os braços para a Esfinge que tanto o desafiou desde seu dificultoso nascimento.
Era dezembro, Rio de Janeiro. Ninguém precisava estar ali para imaginar o calor escaldante daquele dia. O Astro Rei ousava brilhar no céu dos cariocas enquanto o cadáver de Clarice era velado tão tristemente. Creio que poucos acreditavam que ali jazia Clarice, jazia a coragem e intensidade de uma mulher tão misteriosa. Seu deus, sua vida, sua alma era um desafio auto imposto para aquela mulher dos olhos enviesados, da língua presa que agora já não estava mais os encarando. E ainda hoje, 35 anos depois, resta a dúvida: Clarice enfrentou a morte ou a morte enfrentou Clarice Lispector?
Faltava um dia. Um dia para completar 57 anos. Clarice havia nascido em 1920, dia 10 de dezembro. Filha de judeus sofridos, a menininha cresceu e superou paradigmas que ninguém lê em suas obras, mas, quem sabe, os sente. Os sente nas suas entrelinhas esmagadas pelas palavras, misteriosas de si mesmas. Esquisito como sua vida apenas durou 56 anos, mas sua obra perdura até hoje. Suas letras que formavam palavras que formavam frases e serviam como fantasias para toda aquela força vital e sentimental perduram através de gerações.
Mesmo morando na Europa, Estados Unidos, Nordeste brasileiro e seus pais sendo ucranianos, Clarice era carioca. Não de nascença, mas de espírito. O Rio de Janeiro era seu lugar, e como deveria ser bonito a luz do sol reluzindo em seus olhos quase diabólicos! Embora isso, a obra dela se espalhou por todos cantos do mundo, com o vento, com o oceano, com o coração humano. Mesmo com tão pouco tempo seu corpo na Terra, seu coração ainda pulsa nos olhos de quem abre seus livros, lê seus contos.
Clarice não morreu. Clarice está viva de um modo que somente ela, Drummond, Caio, Tom, Eller, Russo e Cazuza conseguem estar. Embora muitos choraram ao redor do seu corpo, quando chegaram em casa após o enterro ou até mesmo muitos nem sabiam e até hoje nem saibam que foi Clarice Lispector, ela vive. Corajosamente, misteriosamente, Clarice venceu o destino de esquecimento que a morte dá.
Mostrando que o corpo era pequeno demais para sua sede de algo maior que a liberdade, pois, afinal, o que ela desejava ainda não tinha nome.