quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Aquele animal irracional.


Ali está Iracema, sentada de frente ao seu computador, tomando seu café enquanto pensa em parar de fumar. Resolve começar seu conto. Escreve: "A menina, confusa, abstrata, viva e mórbida acende seu cigarro e...". Alguém a interrompe.
- Querida, por que em todos seus contos você precisa escrever que a protagonista acende um cigarro?
Silêncio.
- Não sei, talvez fique mais poético.
- Não fica, fica clichê. Caio quase sempre fazia isso. E todos lêem Caio!
Silêncio.
- Amo Caio, quase o idolatro, mas...
- Não encha, garoto!
- ... mas só queria que você fosse você mesma uma vez na droga da sua vida!
A moça desaba a chorar. Abre sua carteira e vê o último cigarro. Quem era aquele imbecil que se atrevia a definir quem era ela realmente? Quantas vezes ela falou sobre suas confidências e ele nem ao menos se importou? Agora vem defini-la. Oras!
- Queria ter o luxo de contar as coisas a alguém que não me julgue. - Sussurra.
- O que disse?
- Disse que vou embora amanhã. É meu último dia na cidade.
Ambos engolem seco. Seco em meio às lágrimas internas e externas que ameaçavam pular dos olhos e brincar de escorrega em seus rostos suados pelo calor daquela noite quente. O garoto aproxima da moça, não sabendo se a pegaria ou não pelos braços encobrindo-a de abraços, beijos e choros repentinos.
- Por que vai?
- Porque necessito ir, menino. Não sou daqui. Nunca fui. Tenho que sair urgentemente.
- Está louca? - indaga atordoado. - Você nasceu aqui, Iracema! Viveu aqui, mora aqui há anos. Como ousa me dizer que vai porque não é daqui?
A escritora afasta a xícara próxima, range os dentes e implode. Como explicar aquilo? Aquela loucura? Irracionalidade absoluta? Como explicar que nem ao menos era desse planeta? Quis chorar. Nenhuma lágrima, nenhuma porcaria de lágrima alivia sua pressão interna, nem ao menos escorre. É tão difícil se ser no momento em que mais se é. Assusta.
- Não pertenço a esse lugar. Sou uma estrangeira.
Silêncio.
- Esse lugar pertence a mim, o levarei por todos lugares que irei. Cada um que amo me compõe. Você, os outros, as casas, árvores, tudo, tudo... são pedaços de mim.
- Você nos pertence, querida. - responde em lágrimas.
- Não pertenço nem a mim, por que acha que sou de vocês?
Silêncio. Duas cabecinhas atordoadamente opostas pensando e angustiando no desconhecido.
- A vida é mútua, moça. Cada um que passa, deixa marca. Cada um que abraça e ama, deixa calor. Deixa lembrança. Lembrança é parte do nosso cérebro, parte tão intensa de nós. Você pertence e nem sabe.
Ele não a entendia. Mas pra quê julgá-lo? Nem ela se entendia mesmo.
Ela é aquele animal abstrato e sentimental que de tantas cores, curvas e sentimentalismos nem se reconhece mais. Ela é o peso e a leveza do universo. A sua alma é tão entendida quanto o fim da galáxia: alguns estudam, outros debatem a existência, a maioria acha complicado demais para tomar conhecimento.
- Querido, não sei de mais nada. Posso pertencer, mas não sinto. Não sinto o aperto delicioso de pertencer a alguém. É bom isso? Não sei. Amo tão intensamente que menos que isso é como se não fosse amada. E o que é isso? Também não sei.
- Você é a garota mais confusa que conheço na vida. E a mais bonita. E a mais estranha.
"Estranha". Ecoou na cabeça da moça a fazendo sorrir. Aquilo sim é elogio. Tão chato seria se não fosse estranha.
- Obrigada.
Ele ri. Quem não riria diante de uma criatura tão... daquele jeito?
- Vamos abrir um vinho? Nos despedir?
- Não! - responde em um susto só. - Não me conhece? Odeio despedidas. Vou embora sem pensar.
- Só pensei em...
- Nem pensar!
- ... nos divertir.
- Divertir? - gargalha - nos divertimos antes, querido. Divertir sabendo que é despedida não é diversão. Você bem sabe que despedida me provoca cóleras e sofrimento intenso.
Ele ri.
- Você é toda intensa, Iracema!
- Sou insana, admita!
- Você é absurda.
Ambos riem e é inevitável se lembrar de como se conheceram. Naquela tarde quente de janeiro, em um ônibus. Quase nunca conversavam com outras pessoas em transportes coletivos. Mas ele vestia uma camiseta de Sinatra e ela carregava uma pilha de livros literários. Como não puxar assunto diante de tanta peculiaridade em um mundo em que os normais carregam tecnologias avançadas e usam camisetas horrivelmente banais?
- Você não dirá adeus, não é mesmo?
Ela leva outro susto.
- Sei escrever cartas, babaca. Isso não é adeus! É até logo.
- Então vamos tomar aquele vinho.
Ele ri da própria insistência, enquanto ela o olha com seu olhar bravo e exaustivo.
- Viajo cedo, odeio despedidas, estou em cólera.
- Saudades de mim?
Bobo, como se ela fosse admitir algo desse tipo.
- Saudades do cigarro.
Ambos tiveram a certeza que essa não era a resposta sincera.
- Teimosa!
Sorri.
- Vai deixar eu acabar de escrever?
- A protagonista fumará?
- Sim. - diz da forma seca como sempre diz em encerramento de assunto, impondo sua vontade às suas criaturas de palavras.
Ele sai sem abraço, sem choro, sem nada que aparente seu sangue latino. Do jeito que ela queria. E isso a dói de modo cortante, como se abrissem o peito dela sem anestesia. Aquilo era saudades ou uma operação invisível?
Ela teve a certeza: sua cólera não é terrena e nem ela é. Ela é um bicho vindo de outro planeta em busca de si própria. O caminho dela é cercado por anjos, sim.
Iracema sorri novamente.
Pensa: "O universo me abençoou e amaldiçoou, será que também fez isso com outros ou eu sou uma experiência sentimental desastrosa?"
Prefere não achar a resposta. Aproxima a xícara e volta a escrever: "... e senta na calçada, olha o horizonte entardecido e tudo o que sonhava era paralisar o tempo e mergulhar em um abraço eterno".

(Maria Rita L. )